iRobot: entre o passado glorioso e o futuro incerto

Pedro

Escrito por Pedro

22 de Novembro, 2025

Roomba Aspirador

A iRobot, conhecida globalmente pelos seus aspiradores robotizados Roomba, está, neste momento, mergulhada numa crise financeira das mais graves da sua história, ameaçando não só a continuidade da marca como também o suporte aos produtos que encantaram milhões de casas em todo o mundo, incluindo Portugal. Este artigo vai explorar a fundo o panorama atual da empresa, recorrendo a dados financeiros oficiais, o impacto para utilizadores, perspetivas para o futuro dos Roomba, e a comparação franca com os melhores rivais chineses que tomaram de assalto o mercado.

O Resumo do Estado Atual

Nos últimos trimestres, a iRobot reportou receitas em queda vertiginosa, com resultados financeiros do terceiro trimestre de 2025 a revelarem-se muito abaixo das expectativas. Segundo os comunicados de imprensa mais recentes da empresa, publicados oficialmente, a receita recuou dos 193,4 milhões de dólares há um ano para 145,8 milhões de dólares em 2025, uma quebra de quase 25% só nesse período. Ao nível europeu (EMEA), a faturação caiu 26,9% no primeiro trimestre de 2025, havendo uma tendência ainda mais negativa nos meses seguintes.​

Mas o mais alarmante? A iRobot tem atualmente menos de 25 milhões de dólares em caixa, um valor considerado pelos analistas insuficiente para cobrir sequer os compromissos operacionais dos próximos meses. Ou seja, a empresa está tecnicamente “à beira do abismo”, com o CEO a admitir a ausência de acesso a novas fontes de capital e a forte possibilidade de entrar em proteção contra credores — o famoso “Chapter 11”, que tanto ouvimos nas notícias sobre falências nos Estados Unidos.​

Como chegámos aqui, a este ponto? Da inovação à queda

Durante anos, os Roomba eram referência inquestionável de inovação. Chegaram mesmo a ser sinónimo de aspirador inteligente, abrindo caminho para que a limpeza digital se tornasse uma realidade quotidiana. Mas, à medida que empresas chinesas como a Roborock, Dreame e Ecovacs lançaram produtos com desempenho idêntico — ou superior — por preços francamente mais baixos, a iRobot viu-se pressionada como nunca.​

A tentativa de salvação surgiu em 2022, quando a Amazon  quis adquirir a iRobot. O negócio foi travado por reguladores europeus, que temeram o domínio da gigante norte-americana em mais um segmento de smart home. Sem este balão de oxigénio, a iRobot foi obrigada a recorrer a dívidas para manter operações, lançando novos modelos e procedendo a cortes drásticos — como a redução da força de trabalho a menos de metade desde janeiro de 2024, diminuição de inventário e aposta no segmento mid e high end, que promove robots com PVP superior a 300 e 500 dólares (valores semelhantes em euros em Portugal).​

Dados financeiros: números que confirmam o pânico

  • Receita anual caiu de 890,6 milhões de dólares (2023) para 681,8 milhões em 2024 (menos 23%).​
  • Lucros negativos e dívidas acumuladas, obrigando a empresa a alertar em documentos oficiais (SEC Form 8-K) o risco de não conseguir cumprir obrigações se não encontrar financiamento adicional urgente.​
  • Menos de 25 milhões de dólares em caixa a meio do quarto trimestre de 2025 — sinal claro do risco real e iminente de colapso.​

De realçar que mais de 76% das vendas do primeiro trimestre de 2025 ainda vêm dos robots de gama média e alta — exatamente o segmento mais atacado por rivais chinesas e onde os clientes portugueses e europeus procuram inovação a um preço cada vez mais competitivo.​

O que pode acontecer ao teu Roomba? (E aos de toda a Europa)

Para quem já tem um Roomba em casa, as notícias não são animadoras: se a iRobot sucumbir à falência, é expectável que os modelos continuem a funcionar no modo offline, mas todas as funções avançadas que dependem dos servidores da cloud – mapeamento inteligente, programação via app, integração em casas inteligentes – podem tornar-se inutilizáveis assim que os servidores forem desligados. Um precedente semelhante ocorreu com a Neato, cuja empresa-mãe fechou portas e manteve os servidores ativos durante três anos para cumprir o período de suporte, mas não há garantias que a iRobot (ou um futuro proprietário) siga esse exemplo. Para mim acaba por ser preocupante porque tenho 2 modelos da iRobot em casa.​

Para já, todos os produtos iRobot continuam oficialmente à venda em Portugal e nas principais lojas online da Europa, mas é impossível garantir o futuro do suporte, das atualizações e da cobertura de garantia se a empresa não encontrar rapidamente um novo investidor ou comprador.

Alternativas no mercado português para o Roomba

Se ainda não tens um robô aspirador ou ponderas trocar, vale a pena olhar para as alternativas:

  • Roborock (linha S e Q) — Já disponível em Portugal, preços entre os 300€ e os 900€, dependendo do modelo e das funções (aspiração, esfregona, esvaziamento automático, mapeamento LIDAR).
  • Dreame — Preços competitivos e cada vez com mais presença em lojas europeias, modelos que facilmente rivalizam com a linha média Roomba, especialmente a partir dos 350€.
  • Ecovacs — Também está a apostar forte em Portugal, normalmente entre 250€ e 800€, com aparelhos multifunções.
  • Xiaomi Robot Vacuum — Modelos como o X20 Max têm recebido feedback muito positivo em fóruns e grupos portugueses, conjugando desempenho com boa relação qualidade/preço, frequentemente abaixo dos 500€.​
  • Rowenta, Philips, Samsung — Marcas internacionais que mantêm linhas de equipamentos a funcionar totalmente offline, ideais para utilizadores que não querem depender da cloud.

O futuro da iRobot na Europa

A iRobot enfrenta, neste momento, o risco real de desaparecer enquanto marca independente. Caso não consiga garantir investimento ou uma aquisição em breve, é provável que proceda a um processo de proteção contra credores. Contudo, tal como aconteceu com a Neato, pode tentar manter os servidores e o suporte ativos temporariamente para não deixar “órfãos” os milhões de Roomba em funcionamento pelo mundo fora. O alerta fica: quem comprar um novo Roomba neste final de 2025 fá-lo arriscando perder as funções de cloud e automação num futuro muito próximo.

Autor

  • Amante de tecnologia no geral e de wearables. Viveu o melhor dos dois mundos, do analógico ao digital. A utilização da Apple mudou a sua perspectiva pela tecnologia contudo ainda vive em vários mundos, android, Apple, Windows e Linux.