Jeff Bezos, Project Prometheus e a nova corrida à IA física: o que está em jogo?

Pedro

Escrito por Pedro

24 de Novembro, 2025

Jeff Bezos

A Project Prometheus é uma nova startup de inteligência artificial onde Jeff Bezos surge como co-CEO, marcando o seu regresso a um cargo operacional desde que saiu da liderança da Amazon em 2021. A empresa aparece ainda em modo “stealth”, com pouca informação pública, mas já com uma estrutura e ambição de gigante.​

Segundo informações avançadas, a startup já garantiu cerca de 6,2 mil milhões de dólares em financiamento, o que corresponde aproximadamente a 5,3 mil milhões de euros, tornando-a uma das startups em fase inicial mais bem financiadas do mundo. Uma parte relevante deste financiamento virá do próprio Jeff Bezos, o que mostra que não se trata apenas de curiosidade tecnológica, mas de uma aposta estratégica pesada.​

O foco: “IA para a economia física”

O slogan que aparece associado à Project Prometheus é “IA para a economia física”, o que é muito mais do que uma frase bonita para o LinkedIn. Em vez de se concentrar apenas em software, chatbots e modelos de linguagem, a empresa quer levar a inteligência artificial para tarefas que tocam o mundo real.​

As fontes citadas indicam que a startup se quer focar em áreas como:

  • Robótica e automação física.
  • Conceção de medicamentos e biotecnologia.
  • Descoberta científica suportada por sistemas autónomos.

A ideia é aproximar-se de empresas como a Periodic Labs, sediada na Califórnia, que também trabalham IA aplicada a problemas físicos complexos. Em vez de se limitar a analisar texto ou imagens, trata‑se de criar sistemas capazes de interagir com o mundo, aprender com tentativa e erro e melhorar continuamente com base em experiências reais.​

Como esta IA difere dos grandes modelos de linguagem

Uma das diferenças centrais está no tipo de dados e na forma de aprendizagem. Enquanto os grandes modelos de linguagem (LLM) são alimentados sobretudo por texto e outros dados digitais, a visão da Project Prometheus passa por IA que aprende diretamente com o mundo físico. Ou seja, em vez de apenas prever a próxima palavra, o objetivo é tomar decisões em ambientes reais, lidar com incerteza, falhas mecânicas, variabilidade do mundo e feedback direto.​

Estas abordagens lembram mais robótica avançada, sistemas de controlo, simulações físicas e plataformas de experimentação automática do que o típico “chatbot inteligente”. É uma mudança de foco: da internet e da informação para fábricas, laboratórios, logística, medicina e ciência aplicada.​

Quem está por detrás do projeto além de Bezos?

Jeff Bezos não está sozinho. A Project Prometheus tem como cofundador e co-CEO Vik Bajaj, físico e químico com histórico forte em investigação aplicada e inovação. No LinkedIn, Bajaj lista o cargo na Project Prometheus com ligação a São Francisco, Londres e Zurique, sugerindo uma presença multinacional desde o início.​

Bajaj trabalhou anteriormente na equipa de investigação X da Google (a antiga Google X), envolvido em projetos altamente experimentais como drones de entrega (Wing) e veículos autónomos (Waymo). Além disso, é um dos fundadores da Foresite Labs, uma incubadora de startups na interseção entre IA, ciência de dados e saúde, o que encaixa bem com a parte de descoberta científica e conceção de medicamentos que foi associada à Project Prometheus.​

Talento recrutado: OpenAI, DeepMind, Meta e companhia

Um dos grandes sinais de que a Project Prometheus não está a brincar é a escala e a origem das pessoas que já foram contratadas. Fontes citadas indicam que a empresa já terá perto de 100 colaboradores, incluindo investigadores vindos de grandes casas de IA como OpenAI, Google DeepMind e Meta.​

Este tipo de recrutamento de elite é típico de startups de IA muito bem financiadas, que competem diretamente com os gigantes pela mesma massa crítica de talento. Em conjunto com o volume de financiamento, isto coloca a Project Prometheus logo à partida na liga das empresas mais ambiciosas do setor, mesmo antes de ter produtos públicos.​

Localização e presença internacional

Até agora, há pouca informação oficial sobre a sede “formal” da Project Prometheus, o que é típico de empresas em fase inicial que ainda não fizeram um grande anúncio institucional. No entanto, o perfil de Vik Bajaj no LinkedIn indica São Francisco, Londres e Zurique como localizações associadas à sua função na startup.​

Esta combinação geográfica não é inocente:

  • São Francisco coloca a empresa no coração do ecossistema de IA e startups.
  • Londres é um polo crescente de IA e fintech na Europa.
  • Zurique é conhecida pela excelência em engenharia, robótica e investigação (ETH, EPFL, etc.).

Tudo aponta para uma estratégia global desde o primeiro dia, com equipas distribuídas e foco em atrair talento onde ele estiver.​

A ligação de Bezos à IA e à robótica

Jeff Bezos já vinha demonstrando interesse em inteligência artificial e robótica muito antes da Project Prometheus ganhar nome público. Um dos exemplos mencionados é o investimento na Physical Intelligence, uma startup que usa IA para controlar robôs, alinhada com esta visão de ligar algoritmos avançados ao mundo físico.​

Além disso, a própria história da Amazon está cheia de automação, algoritmos de recomendação, robótica em armazéns e otimização logística em larga escala. A diferença agora é que, em vez de uma aplicação interna dentro de um gigante tecnológico, Bezos coloca‑se diretamente à frente de uma empresa cuja missão principal é a própria IA física, com impacto transversal em múltiplas indústrias.​

Elon Musk, xAI e a rivalidade reacesa

Era inevitável que Elon Musk reagisse. Assim que a notícia da Project Prometheus ganhou visibilidade, Musk chamou Bezos de “copycat” (imitador) numa publicação na X, a sua própria rede social. Esta picardia cabe perfeitamente na longa história de rivalidade entre ambos, seja na área espacial (Blue Origin vs SpaceX) ou agora na IA (Project Prometheus vs xAI).

Musk já tem a sua própria empresa de IA, a xAI, que tem como objetivo declarado “compreender a verdadeira natureza do universo”, misturando grandes modelos com ambições filosóficas e tecnológicas. A entrada de Bezos num projeto de IA de grande escala adiciona mais combustível a esta competição entre bilionários, num cenário onde capital, talento e poder computacional se tornaram armas estratégicas.​

O que significa “IA para tarefas físicas”?

Quando se fala em IA aplicada a tarefas físicas, está-se a falar de sistemas que precisam de:

  • Perceber o ambiente (sensores, câmaras, dados de laboratório).
  • Tomar decisões em tempo real, muitas vezes com risco real (um braço robótico, um drone, um processo químico).
  • Aprender com a experiência, inclusive falhando, e ajustar o comportamento.

As fontes referem explicitamente robótica, conceção de medicamentos e descoberta científica como exemplos concretos de áreas de foco. Neste tipo de problemas, não basta “ler a internet”; é preciso experimentar, simular, medir, repetir. Isso aproxima a Project Prometheus de laboratórios de investigação avançada e de empresas de deep tech, mais do que de startups puramente software.​

Impacto potencial na economia real

Se a Project Prometheus for bem-sucedida, o efeito pode ser bastante mais tangível do que “apenas” melhorar chatbots. A chamada “economia física” é tudo o que depende de coisas que se mexem, se fabricam, se transportam, se curam ou se descobrem em laboratório. Aqui entram, por exemplo:

  • Fábricas e logística automatizada.
  • Indústria farmacêutica e biotecnologia.
  • Energia, materiais avançados, química.

Soluções de IA capazes de otimizar processos, encontrar novos materiais, acelerar descobertas e operar robôs com mais autonomia podem gerar ganhos de produtividade brutais. Para além disso, podem reduzir custos e prazos em áreas como desenvolvimento de medicamentos, onde cada melhoria incremental tem impacto financeiro e social enorme.​​​

Porque é que este projeto é relevante no contexto da corrida à IA?

A Project Prometheus destaca-se por três motivos principais:

  • Escala de financiamento logo à partida (mais de 5 mil milhões de euros).
  • Envolvimento direto de Jeff Bezos como co-CEO, algo raro depois da sua saída da Amazon.
  • Foco explícito na “economia física”, num momento em que grande parte da atenção pública está virada para LLMs e chatbots.

Ao apostar na convergência entre IA e mundo físico, a empresa coloca-se num espaço que pode vir a definir a próxima vaga de transformação tecnológica. Se a primeira vaga de IA mainstream foi dominada por modelos de linguagem, visão computacional e ferramentas digitais, a próxima pode muito bem ser dominada por robôs, laboratórios autónomos, descoberta científica acelerada e fábricas inteligentes.

Autor

  • Amante de tecnologia no geral e de wearables. Viveu o melhor dos dois mundos, do analógico ao digital. A utilização da Apple mudou a sua perspectiva pela tecnologia contudo ainda vive em vários mundos, android, Apple, Windows e Linux.