ChatGPT com anúncios? O que já se sabe, riscos, impacto e o que podemos esperar

Pedro

Escrito por Pedro

2 de Dezembro, 2025

ChatGPT

Pelos vistos, sim: tudo indica que a OpenAI se está a preparar para meter anúncios diretamente dentro do ChatGPT, começando pela app Android em versão beta, onde já foram encontrados trechos de código a referir uma “ads feature”, “search ad”, “search ads carousel” e “bazaar content”. Ainda nada foi lançado oficialmente para os utilizadores em geral, mas os sinais são demasiado claros para serem coincidência.​

O que foi exatamente “descoberto” no código

Um engenheiro de software chamado Tibor Blaho analisou a versão beta 1.2025.329 da app Android do ChatGPT e encontrou cerca de uma dúzia de linhas de código diretamente relacionadas com funcionalidades de anúncios. Entre as referências, aparecem termos como:​

  • “feature ads”
  • “search ad”
  • “search ads carousel”
  • “bazaar content”

Isto sugere claramente:

  • Um sistema de anúncios integrado na experiência de pesquisa/consulta dentro da app.
  • Um “carrossel” de anúncios, ou seja, vários resultados patrocinados que podes deslizar ou ver agrupados.​

Tanto a TechRadar como a Mashable e o Futurism confirmam que estas referências existem na build beta mais recente da app Android, lançada no final de novembro de 2025. Não são especulações vagas: é código real, já dentro da aplicação, embora ainda não esteja visível para o utilizador comum.​

O que a OpenAI já disse (e desdisse) sobre anúncios

A OpenAI anda a enviar sinais contraditórios sobre anúncios há mais de um ano. De forma muito resumida:​

  • A CFO Sarah Friar disse ao Financial Times que a empresa estava a “explorar” um modelo de anúncios, mas depois recuou e afirmou que não havia “planos ativos” para publicidade.
  • Sam Altman já chamou a ideia de meter anúncios no ChatGPT “desconfortável” e algo de “último recurso”, mas mais recentemente disse que não está “totalmente contra” e que espera “experimentar” anúncios em algum momento, elogiando até o modelo de publicidade do Instagram.​

A própria OpenAI também já tinha dito publicamente que, se usasse anúncios, estes deveriam ser “thoughtful and tasteful” – ou seja, teoricamente discretos, integrados e menos irritantes do que banners tradicionais.

Ao mesmo tempo:

  • A empresa continua a dar prejuízo e projeta-se que permaneça no vermelho até 2030, segundo análises citadas pela Mashable.
  • Estimativas apontam para necessidades de investimento da ordem das centenas de milhar de milhões de euros/dólares para escalar a infraestrutura de IA generativa.

Isto tudo coloca uma pressão gigantesca para encontrar novas fontes de receita para além das subscrições e do acesso pago via API.

Porque é que os anúncios estão a aparecer agora

Gerar texto, imagens e vídeo com IA em escala global não é brincadeira: exige GPUs caríssimas, data centers gigantescos e energia a rodos. Até agora, a OpenAI tem vivido principalmente de:

  • Subscrições pagas (como o ChatGPT Plus / versões Pro).
  • Licenciamento e acesso pago à API para empresas.

Mas isso já não chega para acompanhar o ritmo de crescimento e os planos de expansão. Segundo dados citados pela Mashable e por outras publicações:

  • A OpenAI continua a operar com prejuízo relevante.
  • Estimativas indicam que poderão ser precisos mais de 200 mil milhões em investimento até ao final da década para suportar a expansão de IA generativa à escala que a empresa ambiciona.

Além disso:

  • A empresa tem recrutado ex‑funcionários de gigantes da publicidade como Google e Meta, incluindo perfis de topo na área de anúncios.
  • Há relatos de ofertas de emprego ligadas a produtos de ads e monetização avançada.

Ou seja: o puzzle encaixa-se todo. Os anúncios eram apenas uma questão de “quando”, não de “se”.

Como é que os anúncios podem aparecer dentro do ChatGPT

Ainda não há um anúncio oficial de formato, layout ou regras, mas a combinação do que está no código com o que já se faz noutros produtos de IA dá algumas pistas.​

Pelo que se sabe até agora, é razoável esperar:

  • Ads ligados a pesquisas (“search ad”)
    Quando fizeres perguntas do tipo “melhores hotéis em Lisboa” ou “onde comprar portátil gaming até 1500 €”, podem aparecer links patrocinados misturados ou destacados à volta da resposta principal.​
  • Carrossel de anúncios (“search ads carousel”)
    Um bloco deslizante com várias opções patrocinadas (produtos, serviços, sites) que podes percorrer, provavelmente com indicação de “patrocinado” ou semelhante, tal como se vê em motores de busca.​
  • “Bazaar content”
    O termo é vago, mas sugere um espaço mais comercial, tipo marketplace, onde o ChatGPT pode sugerir produtos, serviços, apps ou integrações de forma mais claramente orientada para consumo.​

A TechRadar especula que, mantendo o estilo atual da interface (sobretudo na app Android com a funcionalidade “Shopping Research”), os anúncios deverão ser relativamente discretos e bem integrados visualmente, evitando aquela sensação de site cheio de banners a piscar.

Contudo, haverá sempre a questão crítica: quão claramente vão eles distinguir “resposta neutra da IA” de “conteúdo patrocinado”?​

E os utilizadores pagos, vão ver anúncios?

Esta é das perguntas mais importantes – e, neste momento, ainda não tem resposta clara.

Nos artigos e fugas de informação que existem:

  • Fala‑se sobretudo na possibilidade de utilizadores da versão gratuita verem anúncios dentro da app, tal como acontece com muitos serviços online.
  • Não há confirmação oficial se uma subscrição paga (Plus, Team, Enterprise, etc.) vai remover totalmente os anúncios, reduzir a frequência ou simplesmente dar anúncios “mais relevantes”.​

A Mashable sugere explicitamente que os anúncios deverão ser mais prováveis no plano gratuito, já que os planos pagos e o API são atualmente as principais fontes de receita direta. Mas, sem anúncio oficial, isto continua no campo da expectativa, não da certeza.

Impacto na experiência de utilização

Durante três anos, uma das grandes graças do ChatGPT foi oferecer respostas diretas sem aquela sensação de estar a atravessar um campo minado de publicidade, ao contrário dos motores de busca tradicionais. Se começarem a surgir anúncios, várias coisas mudam:​

  • Risco de confusão entre resposta e publicidade
    Se os anúncios forem demasiado integrados no texto ou no fluxo de conversa, o utilizador pode não perceber imediatamente que parte daquela sugestão é patrocinada.​
  • Alteração da sensação de “confiança”
    O ChatGPT muitas vezes tem um tom de “assistente” quase pessoal; misturar isso com intenções comerciais pode quebrar um pouco a ilusão de neutralidade.
  • Menos fricção para gastar dinheiro
    Se o chatbot já sabe os teus gostos, hábitos e necessidades (porque lhe contas tudo nas conversas), é muito mais fácil sugerir produtos/serviços que pareçam perfeitos para ti – o que é ótimo… e perigoso ao mesmo tempo.

Num cenário mais otimista, os anúncios podem ser:

  • Claramente marcados como patrocinados.
  • Colocados em zonas separadas (por exemplo, um bloco abaixo da resposta principal).
  • Relevantes e não intrusivos, mais próximos de “recomendações úteis” do que de spam.

Num cenário menos simpático, podem começar a condicionar subtilmente as respostas, puxando sempre por soluções que envolvam certos serviços/produtos, mesmo quando não são necessariamente os melhores para o utilizador.

Questões de privacidade e ética

É aqui que a coisa fica mais séria: os anúncios em motores de busca já levantam bastantes questões, mas anúncios dentro de um chatbot “conversacional” ainda vão mais longe.​

Alguns pontos delicados:

  • Intimidade dos dados
    As pessoas dizem muito mais de si mesmas a um chatbot do que a um campo de pesquisa – falam de saúde, relações, dinheiro, problemas mentais, vícios, etc.
    Se parte dessa informação for usada (mesmo que agregada ou segmentada) para direcionar anúncios, a linha entre “personalização útil” e “exploração emocional” é muito ténue.
  • Vulnerabilidade emocional
    Quando o chatbot adota um tom de amigo, terapeuta ou conselheiro, existe um risco real de publicidade “emocionalmente manipuladora”, por exemplo: sugerir certos produtos como solução mágica para inseguranças ou crises pessoais.
  • Addiction design
    Várias plataformas de IA conversacional são desenhadas de forma a manter o utilizador a interagir durante longos períodos – mais tempo, mais dados, mais oportunidades para anúncios.

Além disso, já houve relatos de fenómenos descritos como “AI psychosis”, em que pessoas criam relações excessivamente intensas com chatbots; misturar isso com incentivos comerciais é uma receita complicada.

Tudo isto significa que, quando os anúncios chegarem em força, os reguladores europeus (sobretudo na UE) vão provavelmente olhar com muita atenção para:

  • Conformidade com RGPD / GDPR.
  • Transparência na utilização de dados para segmentação de publicidade.
  • Limites na forma como a IA pode usar o contexto emocional ou psicológico da conversa para sugerir produtos.

OpenAI está sozinha nisto? Não.

Nada disto acontece num vácuo. Outras empresas de IA já se mexeram (ou estão a mexer‑se) para integrar publicidade.​

Exemplos:

  • Google
    Já mostra conteúdo patrocinado integrado nas “AI Overviews” em resultados de pesquisa, embora com qualidade variável e não poucas polémicas.
  • Perplexity
    Tem vindo a testar anúncios dentro da sua interface de respostas desde 2024/2025, focando-se em resultados patrocinados que aparecem misturados com respostas de IA.
  • Outras plataformas de IA conversacional
    Existem projetos de companheiros de IA financiados por capital de risco (incluindo alguns apoiados pela Google) que também já experimentam anúncios ou parcerias comerciais dentro da conversa.

Ou seja, a OpenAI não está a inventar a roda. Está, isso sim, a alinhar-se com o modelo dominante da internet: se tens centenas de milhões de utilizadores, a publicidade é quase inevitável como fonte de monetização, sobretudo quando os custos de operação são gigantescos.

Comparação rápida: ChatGPT vs outras IAs com anúncios

Para teres uma visão mais clara, aqui vai uma tabela simples a comparar a situação anunciada/prevista com outros serviços:

ServiçoEstado atual dos anúnciosTipo de anúncios/tendênciaObservações principais
ChatGPT (OpenAI)Sem anúncios visíveis na versão pública, mas código beta já inclui “feature ads”, “search ad”, “search ads carousel”.​Foco provável em anúncios ligados a pesquisa e recomendações de produtos/serviços dentro da conversa.​Ainda sem data oficial de lançamento; forte pressão económica para avançar com monetização via ads.
Google (AI Overviews)Já mostra conteúdo patrocinado misturado com resultados de IA.Ads de pesquisa tradicionais adaptados ao formato de respostas de IA.Várias críticas à qualidade das respostas e à clareza da distinção entre orgânico e patrocinado.
PerplexityA testar anúncios desde 2024/2025.Links patrocinados integrados nas respostas, sobretudo em queries de pesquisa comercial.Modelo próximo de “motor de busca com IA + publicidade”.
Plataformas de companheiros de IAAlguns serviços com experiências de ads ou parcerias comerciais na conversa.Recomendações de apps, serviços, subscrições, etc., muitas vezes com cunho emocional.Levanta questões sérias de ética e privacidade, semelhantes às que se colocam agora ao ChatGPT.

Juntando todas as peças o que podemos esperar

Juntando tudo:

  • Sim, tudo indica que os anúncios vão mesmo chegar ao ChatGPT, começando pela app Android e, provavelmente, estendendo-se depois à web e a outras plataformas.​
  • As referências no código apontam para um modelo centrado em anúncios de pesquisa, carrosséis e possivelmente um espaço mais “comercial” (“bazaar content”).​
  • Ainda não há confirmação oficial de datas, nem detalhes sobre exclusão de anúncios para quem paga subscrição, incluindo utilizadores em Portugal e na Europa.​
  • A mudança encaixa no contexto económico: custos gigantescos de infraestrutura, empresa ainda não lucrativa, recrutamento de talento de publicidade e intenções admitidas (embora com recuos verbais) pela própria liderança da OpenAI.
  • Do lado do utilizador, vão abrir-se debates complicados sobre confiança, privacidade, ética e até saúde mental, porque misturar um “amigo digital” com incentivos comerciais é sempre um equilíbrio delicado.​

Autor

  • Amante de tecnologia no geral e de wearables. Viveu o melhor dos dois mundos, do analógico ao digital. A utilização da Apple mudou a sua perspectiva pela tecnologia contudo ainda vive em vários mundos, android, Apple, Windows e Linux.