O cemitério das grandes ideias: o fim do Project Ara e a revolução silenciosa da modularidade

Pedro

Escrito por Pedro

4 de Junho, 2026

Fotografia de perto das mãos de uma pessoa a segurar o protótipo do smartphone modular Project Ara, destacando a sua traseira composta por blocos físicos intercambiáveis de várias cores, um módulo de câmara fotográfica e um mini-ecrã a exibir a meteorologia.

A atual paisagem tecnológica transformou-se num oceano de monotonia. Olhamos para as montras das lojas de eletrónica e o que vemos? Retângulos de vidro e metal, perfeitamente selados, brilhantes, frágeis e, acima de tudo, intocáveis. O smartphone moderno é uma autêntica “caixa negra”. Funciona de forma maravilhosa até ao dia em que a bateria começa a viciar ou o ecrã racha após um encontro trágico com o alcatrão. Quando isso acontece, a solução da indústria é quase sempre a mesma: atirar o dispositivo inteiro para o lixo e comprar o modelo mais recente, gastando centenas ou milhares de euros.

Mas nem sempre pensámos que este seria o nosso destino. Houve um tempo, não muito distante, em que a indústria parecia estar à beira de uma revolução que nos devolveria o poder. Uma revolução que nos permitiria tratar os telemóveis como tratamos os computadores de secretária ou os tijolos de LEGO. Estou a falar, claro, do sonho utópico do smartphone modular. Ou será que a utopia ficou de lado com a apresentação do TECNO Modular Phone durante a MWC 2026?

Neste artigo, vamos viajar no tempo, dissecar o icónico Project Ara, analisar o que falhou, e debater se a modularidade é uma daquelas ideias geniais que estava apenas demasiado à frente do seu tempo ou se, pelo contrário, ainda será a chave para salvar o planeta do desastre do lixo eletrónico.

A tirania do vidro e o fim da propriedade

Para compreendermos a obsessão com a modularidade, temos de olhar para a forma como o mercado mobile evoluiu. No início dos anos 2000, os telemóveis eram máquinas utilitárias. Se a bateria viciasse, ias a uma loja, compravas uma bateria nova, tiravas a tampa traseira de plástico e resolvias o problema em dez segundos. Não precisavas de ser um técnico de hardware com ventosas, pistolas de calor e ferramentas de precisão.

Com a chegada do iPhone original em 2007, o paradigma começou a mudar. A Apple introduziu a ideia de um dispositivo unibody, onde a bateria estava escondida e inacessível ao utilizador comum. A justificação era estética e funcional: para fazer telefones mais finos, mais elegantes e com espaço para baterias maiores, era preciso sacrificar a acessibilidade. Aos poucos, toda a indústria, desde a Samsung à Huawei, seguiu este caminho. Ganhámos telemóveis à prova de água e com designs deslumbrantes, mas perdemos o verdadeiro controlo sobre o hardware que compramos.

Esta filosofia de design fechado não é apenas frustrante para o consumidor; é uma catástrofe ecológica. O ciclo de atualização forçada a cada dois ou três anos gera milhões de toneladas de lixo eletrónico (e-waste) anualmente. Metais preciosos, terras raras, baterias de lítio – tudo acaba em aterros ou em processos de reciclagem ineficientes porque um único componente (como a porta de carregamento ou o ecrã) deixou de funcionar. Foi contra este cenário de consumismo desenfreado e obsolescência programada que a semente da modularidade começou a germinar.

A génese: Phonebloks e a faísca inicial

Tudo começou a ganhar forma visual em 2013, quando um designer holandês chamado Dave Hakkens publicou um vídeo no YouTube que rapidamente se tornou viral. O projeto chamava-se “Phonebloks”. Hakkens não era um engenheiro de telecomunicações; era alguém preocupado com o desperdício. O seu conceito era simples, brilhante e incrivelmente apelativo: um telemóvel construído sobre uma base (uma “breadboard”) na qual se encaixavam blocos funcionais.

O ecrã estava avariado? Trocavas apenas o bloco do ecrã. Querias um telemóvel focado em armazenamento para guardares toda a tua biblioteca de música e filmes? Colocavas um bloco de memória gigantesco e abdicavas de outras funções.

O vídeo do Phonebloks gerou uma onda de choque na internet. Para quem vive a tecnologia intensamente e passa os dias de olho nas tendências, aquilo foi um momento de viragem. Parecia que o público, de repente, acordara do transe do design unibody e exigia o direito à personalização extrema. A campanha de consciencialização de Hakkens atingiu milhões de pessoas. O que Hakkens não sabia (ou talvez soubesse) era que, nos laboratórios secretos de uma das maiores empresas do mundo, um grupo de engenheiros já estava a trabalhar exatamente na mesma ideia.

Project Ara: quando a Google decidiu mudar as regras

A Motorola, na altura detida pela Google, tinha uma divisão chamada ATAP (Advanced Technology and Projects). Liderada por Regina Dugan (uma ex-diretora da DARPA), a ATAP era o equivalente tecnológico de uma equipa de operações especiais. Eles pegaram no conceito filosófico do Phonebloks e decidiram transformá-lo em engenharia real, dando-lhe o nome de código “Project Ara”.

Quando a Google vendeu a Motorola à Lenovo, fez questão de manter a ATAP e o Project Ara sob a sua alçada. O hype em torno do Ara foi indescritível. Eu próprio recordo-me perfeitamente da excitação dessa época, de ler os fóruns, de assistir às conferências de programadores (Project Ara Developer Conferences) e de escrever longos textos sobre como a indústria tradicional dos smartphones estava com os dias contados. Parecia que tínhamos o futuro nas mãos.

A arquitetura do Project Ara era fascinante do ponto de vista técnico. A base de tudo era o “Endoskeleton” (ou Endo), uma estrutura de alumínio que continha os circuitos de comunicação básicos. Os módulos seriam encaixados neste esqueleto e presos através de ímanes eletropermanentes, ímanes que só consumiam energia no momento de prender ou soltar o módulo, mantendo a fixação sem gastar bateria de forma contínua.

O software utilizaria um protocolo chamado UniPro, desenvolvido para garantir que os dados fluíssem entre a câmara, o processador e o ecrã a velocidades estonteantes, quase como se tudo estivesse soldado na mesma placa-mãe. Além disso, o Android estava a ser reescrito para suportar “hot-swap”, ou seja, a capacidade de ejetar e inserir módulos com o telemóvel ligado. Podias, literalmente, ficar sem bateria, inserir uma bateria secundária num espaço vazio, retirar a bateria principal descarregada, e o telemóvel nunca se desligaria.

Casamentos, festivais e a modularidade no dia-a-dia

Vamos imaginar por momentos que o Project Ara tinha vingado e que a modularidade extrema era hoje a norma. A utilidade prática disto no dia a dia é algo que ainda nos faz suspirar de frustração pelo que perdemos.

Imagina a seguinte situação: amanhã tens o casamento do teu melhor amigo, ou talvez vás cobrir um evento multimédia importante. Sabes que vais passar o dia inteiro a gravar vídeos em 4K, a tirar centenas de fotografias e que não vais ter acesso a uma tomada durante umas boas 15 horas. Num smartphone tradicional, terias de carregar um powerbank pesado no bolso e rezar para que o software da câmara se aguentasse.

No mundo utópico do Project Ara, a preparação para o evento seria completamente diferente. Na noite anterior, pegarias no teu telemóvel, deslizarias o módulo de câmara normal e colocarias um módulo de câmara premium, com um sensor maior e estabilização ótica superior. A seguir, removerias o módulo de sensor de batimentos cardíacos (que não irias usar na festa) e encaixarias um bloco de bateria extra. Se o espaço não chegasse, podias até abdicar da coluna de som estéreo e colocar uma terceira bateria. O telemóvel ficaria um pouco mais grosso, mas estaria perfeitamente adaptado para aguentar um uso intensivo e abusivo durante todo o dia.

No dia a dia normal? Trocavas de volta para os módulos mais finos. Ias de fim de semana para o campo e querias ouvir música com os amigos? Encaixavas um módulo de altifalante desenhado por uma marca de alta-fidelidade sonora. As possibilidades eram limitadas apenas pela imaginação dos fabricantes de módulos. Era o telemóvel à tua imagem e semelhança.

As alternativas (e os compromissos) que ficaram pelo caminho

Enquanto a Google trabalhava nos bastidores com o Ara, outras marcas sentiram a pressão do mercado e tentaram capitalizar no entusiasmo da modularidade. No entanto, em vez de criarem ecossistemas verdadeiramente abertos, ofereceram soluções limitadas, muitas vezes conhecidas como “modularidade de compromisso”.

O caso mais famoso foi o LG G5, lançado em 2016. A LG criou um telemóvel onde a parte inferior do dispositivo (o chamado “queixo”) podia ser removida juntamente com a bateria. O objetivo era encaixar módulos diferentes, que a LG chamou de “Friends”. Havia um módulo de câmara (o LG Cam Plus) que adicionava botões físicos de disparo e bateria extra, e um módulo de áudio (o LG Hi-Fi Plus) criado em parceria com a B&O Play para os audiófilos. O problema? Para trocar de módulo, tinhas de desligar o telemóvel, retirar a bateria à força, inseri-la no novo módulo, voltar a encaixar e reiniciar o sistema. A construção era duvidosa, os módulos eram caros e o sistema falhou miseravelmente em conquistar o público. A LG abandonou o conceito logo no modelo seguinte.

LG G5
LG G5 – modelo de 2016

Logo a seguir, a Motorola tentou a sua sorte com os Moto Mods. Devo admitir que, do ponto de vista de design, a Motorola fez um trabalho muito superior ao da LG. A traseira dos telemóveis da linha Moto Z tinha pinos conectores magnéticos. Podes simplesmente “colar” um módulo na traseira do telemóvel sem o desligar. Havia baterias, colunas da JBL, um projetor de vídeo e até um módulo fotográfico da Hasselblad com zoom ótico real. Os Moto Mods sobreviveram durante algumas gerações, mas acabaram por desaparecer. O motivo era simples: para garantir a compatibilidade dos módulos, a Motorola não podia mudar o formato nem as dimensões dos seus telemóveis, o que estagnou o design e tornou a marca obsoleta num mercado que evoluía a uma velocidade vertiginosa.

O Choque de Realidade: Porque Falhou o Project Ara?

Se o entusiasmo era tanto e a Google tinha os melhores engenheiros do mundo, por que razão o Project Ara foi cancelado abruptamente em 2016, pouco tempo antes do seu suposto lançamento comercial?

A resposta reside numa combinação cruel de física e economia. Em primeiro lugar, havia o problema da integridade estrutural. Por muito fortes que fossem os ímanes eletropermanentes, um telemóvel feito de dezenas de pequenos blocos não reage bem a quedas. E convenhamos, nós deixamos cair os telemóveis constantemente. Nos testes de queda internos da Google, o esqueleto resistia, mas os módulos separavam-se e voavam em todas as direções, como peças de um puzzle a ser atirado contra a parede. Ninguém quer apanhar a câmara do chão num lado da sala e o processador no outro.

Em segundo lugar, a eficiência. Quando construímos um “System on Chip” (SoC) moderno, onde o processador, a memória RAM e a placa gráfica estão milimetricamente próximos no mesmo pedaço de silício, a comunicação é instantânea e o consumo de energia é otimizado ao limite. Quando separamos estes componentes em blocos físicos distintos, a energia e o tempo necessários para fazer a informação viajar de um módulo para o outro através dos conectores do Endoskeleton aumenta drasticamente. O resultado era um telemóvel grosso, pesado, que aquecia muito e cuja bateria durava menos do que um smartphone normal da mesma época.

Por fim, a logística e o preço. Manter um ecossistema aberto de módulos obrigava as empresas a desenhar peças independentes, certificar cada uma delas, embalar, distribuir e vender separadamente. O custo para o consumidor seria astronómico. Um telemóvel modular topo de gama acabaria por custar muito mais do que um iPhone ou um Galaxy equivalente, oferecendo um desempenho global inferior.

Sustentabilidade e o direito à reparação: a herança modular

Poderíamos olhar para o fim do Project Ara como o fim da esperança. Contudo, o impacto desta aventura foi profundo e transformou-se em algo muito mais pragmático. A ideia de que temos de aceitar telemóveis selados de forma irreparável começou a ser desafiada a nível governamental e ativista.

O movimento “Right to Repair” (Direito à Reparação) ganhou um ímpeto brutal nos últimos anos. Os consumidores e os legisladores, especialmente na União Europeia, começaram a exigir que a tecnologia fosse sustentável. A partir de 2027, as novas regras da UE vão obrigar as fabricantes a desenhar smartphones de onde o utilizador possa remover e substituir a bateria facilmente, sem ferramentas altamente especializadas ou adesivos impossíveis de derreter. Esta legislação é uma vitória direta do espírito que o Phonebloks e o Ara ajudaram a cultivar.

A realidade contemporânea e o exemplo Fairphone

Hoje, a verdadeira essência da modularidade não está em telemóveis onde trocamos de ecrã durante uma viagem de autocarro só porque sim. Está em telemóveis construídos com decência e respeito pelo consumidor. O maior porta-estandarte desta filosofia é a Fairphone.

Fairphone

A marca europeia não tenta vender “módulos de performance” como se fosse o Project Ara, mas sim telemóveis construídos com parafusos normais em vez de cola. Se o ecrã do teu Fairphone 5 partir, tu vais ao site deles, compras um ecrã novo, recebes uma pequena chave de fendas em casa e fazes tu mesmo a reparação em cinco minutos. O mesmo se aplica à porta USB-C, à bateria ou aos módulos de câmara. Eles até fornecem tutoriais e esquemas transparentes.

Para além disso, a Fairphone garante atualizações de software Android durante 8 a 10 anos. Isto sim, é verdadeira modularidade virada para a sustentabilidade. Pode não ter o encanto futurista dos ímanes da Google, mas é uma solução real, palpável e que funciona hoje, ajudando a travar o desastre ambiental da nossa dependência tecnológica. Curiosamente, este modelo de negócio tem vindo a expandir-se para os computadores portáteis, como prova a Framework, uma empresa que está a fazer pelos laptops o que o Ara prometeu para os smartphones, e com enorme sucesso.

O futuro da modularidade

Podemos mesmo achar que a modularidade total será o futuro? É improvável que voltemos a ver algo tão ambicioso e fisicamente fragmentado como o Project Ara. As leis da física e da miniaturização favorecem a integração. Os nossos processadores têm hoje nanómetros de distância entre transístores; separar componentes fisicamente num formato tão pequeno como um telemóvel traz mais desvantagens de performance do que vantagens.

No entanto, a filosofia por trás do modularismo está mais viva do que nunca. O futuro não passa por trocar o módulo do telemóvel a caminho de um casamento. O futuro passa por ter a liberdade de comprar um equipamento, saber que ele é nosso e ter o direito inalienável de o abrir, reparar e prolongar a sua vida útil.

A era da obsolescência programada escondida atrás de fita adesiva e vidro frágil tem os dias contados graças à legislação e à consciencialização do público. A semente foi plantada há mais de uma década. E mesmo que o telemóvel “LEGO” nunca chegue às nossas mãos da forma que idealizámos nos nossos artigos e debates mais sonhadores, a revolução silenciosa da sustentabilidade e do direito à reparação prova que o sonho, afinal, valeu a pena.

Autor

  • Amante de tecnologia no geral e de wearables. Viveu o melhor dos dois mundos, do analógico ao digital. A utilização da Apple mudou a sua perspectiva pela tecnologia contudo ainda vive em vários mundos, android, Apple, Windows e Linux.